
“E aqui está o principal ensinamento que a metodologia dos agentes populares nos deu: o povo não quer mais ser apenas beneficiário de políticas públicas.” Foto: Emilly Firmino
Por Ana Carolina Vasconcelos, militante do Movimento Brasil Popular
Em um dos momentos mais sombrios da história recente, quando o governo Bolsonaro transformava a pandemia em arma política e o negacionismo custava vidas, o Movimento Brasil Popular e outras organizações do campo popular escolheram o caminho oposto: foram para os territórios. Nasceram ali redes de cuidado mútuo que provaram, uma vez mais, que o povo cuida do povo quando o Estado vira as costas.
Os mais de 1000 agentes populares reunidos no Encontro Nacional dos Agentes Populares do Movimento Brasil Popular são a expressão viva dessa trajetória. Mas carregam algo mais antigo: a marca de um povo que se forjou na resistência — nos quilombos, nas lutas camponesas, nas periferias urbanas — e que sempre encontrou na solidariedade ativa a força para seguir esperançando um mundo diferente.
Estamos, novamente, diante de um momento decisivo. A extrema direita reorganiza suas forças e ameaça voltar ao poder. Mas a disputa de 2026 não pode ser travada apenas no campo da mobilização convencional — quantos panfletos se distribui, quantas ruas se percorre. É preciso disputar o projeto de Brasil que cada família, cada trabalhador, cada jovem de periferia deseja para a própria vida.
Há dois Brasis em confronto. Um deles, o Brasil das elites e da extrema direita, já foi vivido na pele por muita gente: a fome que voltou, as filas por ossos para comer, os 700 mil mortos pela pandemia administrada com descaso, o desemprego, o endividamento, as escolas abandonadas, os jovens negros encarcerados ou mortos, as mulheres violentadas, a corrupção institucionalizada. É o Brasil de Bolsonaro e é o projeto que os mesmos grupos econômicos e políticos querem recolocar no poder, agora com o apoio declarado de Donald Trump, com o dinheiro de esquemas como o do Banco Master e do INSS, e com o megafone das redes sociais e dos veículos hegemônicos de comunicação a serviço da desinformação.
O outro Brasil já existe e é construído todos os dias por quem está neste encontro. É o Brasil das cozinhas populares e da reforma agrária que combatem a fome na raiz. Da redistribuição de renda e da tributação progressiva que faz os mais ricos contribuírem mais. Da geração de empregos e do fim da escala 6×1. Das crianças nas escolas e dos jovens nas universidades, não para servir ao projeto das elites, mas para se tornarem construtores de um mundo novo. É o Brasil da soberania nacional que não se dobra às pressões externas, da democracia que resiste ao autoritarismo, da igualdade racial e de gênero. É o Brasil que não aceita a Palestina sendo destruída enquanto o mesmo imperialismo que apoia esse massacre quer ditar os rumos da nossa política.

“O nosso lado tem o que nenhum dinheiro compra: o povo brasileiro organizado”. Foto: Emilly Firmino
Esse Brasil tem nomes concretos: é o Brasil das Cinthianes, das Maiaras, das Terezinhas, das Cidas, das Marias, das Mônicas, das Catarinas, das Anas, das Ceres. Do Tião, do José Carlos, da Titi, da Raquel e de tantas e tantos espalhados em cada canto deste país.
Sabemos que esse Brasil é possível porque o construímos todos os dias nas cozinhas solidárias, nos cursinhos populares, nos Centros Populares de Solidariedade, em cada iniciativa dos agentes populares nos territórios. Os últimos quatro anos provaram que, com vontade política, é possível retomar o Bolsa Família e o Minha Casa Minha Vida, ampliar o Programa de Aquisição de Alimentos, fortalecer o PNAE, investir nos Institutos Federais, reduzir o desemprego, combater o endividamento com programas como o Desenrola e, pela segunda vez, retirar o Brasil do Mapa da Fome.
É muito. Mas não é suficiente. Ainda há famílias sem saber o que comer. Os alimentos ainda pesam demais nos bolsos de quem ganha pouco. Há trabalhadores sem direitos, submetidos a jornadas extenuantes, vivendo da precariedade. A violência ainda domina nossas cidades. Se os últimos anos foram de retomada, os próximos precisam ser de avanços estruturais. Esse é o horizonte que nos move.
E aqui está o principal ensinamento que a metodologia dos agentes populares nos deu: o povo não quer mais ser apenas beneficiário de políticas públicas. O povo quer ser sujeito. Quer participar, decidir, transformar. Essa consciência muda tudo, muda a forma de organizar, de disputar, de construir.
É por isso que a tarefa dos agentes populares em 2026 vai além das eleições. Reeleger Lula e eleger representantes comprometidos com o povo no legislativo, deputados estaduais e federais com a cara e o compromisso da classe trabalhadora, é parte fundamental desta disputa.
Precisamos de unidade da classe trabalhadora. Precisamos que os agentes populares e o Movimento Brasil Popular se multiplique: que os 1000 que estamos aqui hoje se tornem dezenas de milhares nos próximos anos, em uma força social renovada, enraizada nos territórios, capaz de disputar não apenas votos, mas o projeto de Brasil que queremos deixar para as próximas gerações.
O lado de lá tem Trump, tem o dinheiro da corrupção, tem o controle de parte dos meios de comunicação. O nosso lado tem o que nenhum dinheiro compra: o povo brasileiro organizado.
Este é um artigo de opinião pessoal e não necessariamente representa a posição do conjunto do Movimento Brasil Popular

