
Pleito se configura como um referendo sobre o ciclo iniciado por Gustavo Petro, que colocou a esquerda pela primeira vez no poder no país. Foto: Presidência da Colobia/Flickr
Po Giovani del Prete, militante do Movimento Brasil Popular, membro da Secretaria Continental da ALBA Movimentos
No próximo 31 de maio de 2026, a Colômbia vai às urnas em uma das eleições presidenciais mais polarizadas de sua história recente. Mais do que a escolha de um novo governo, o pleito se configura como um referendo sobre o ciclo iniciado por Gustavo Petro, que colocou a esquerda pela primeira vez no poder no país.
De um lado, a candidatura de Iván Cepeda, que lidera as pesquisas e propõe aprofundar reformas sociais; de outro, uma direita fragmentada, mas competitiva, representada por Paloma Valencia e Abelardo de la Espriella, que defendem um giro conservador na política nacional.
O resultado terá impactos que vão além das fronteiras colombianas. Em um contexto regional marcado pelo segundo turno no Peru e pelas eleições no Brasil e nos Estados Unidos ao longo de 2026, o desfecho colombiano pode influenciar diretamente a correlação de forças no continente e redefinir alianças internacionais.
Quem é quem nesta disputa?
A eleição colombiana gira em torno de três polos principais: continuidade progressista, direita tradicional e ultradireita emergente, além de candidaturas de centro com menor peso eleitoral.
Iván Cepeda (Pacto Histórico) é atual senador e figura histórica na defesa dos direitos humanos, ele aparece como favorito nas pesquisas, com cerca de 35% a 38% das intenções de voto. Sua candidatura representa a continuidade e aprofundamento do projeto iniciado por Gustavo Petro.
No plano nacional, Cepeda propõe avançar nas reformas sociais, com foco em saúde, trabalho e previdência, além de impulsionar uma reforma agrária estruturante ligada à soberania alimentar e ao fortalecimento das organizações camponesas. Também defende aprofundar políticas de paz e ampliar direitos sociais.
No plano internacional, sua candidatura aposta em maior autonomia da Colômbia, fortalecimento da integração latino-americana e posições críticas à influência dos Estados Unidos, mantendo uma política externa voltada à soberania regional.
Paloma Valencia (Centro Democrático) é ligada ao campo político do ex-presidente Álvaro Uribe Vélez, Valencia aparece com cerca de 22% a 26% das intenções de voto, em crescimento nas pesquisas recentes. Sua candidatura representa a direita tradicional colombiana.
No plano interno, defende endurecimento da política de segurança, maior protagonismo das forças armadas, revisão de reformas sociais e fortalecimento do ambiente de negócios. Na política internacional, tende a reposicionar a Colômbia em maior alinhamento com os Estados Unidos e com agendas liberais no campo econômico.
Abelardo de la Espriella (ultradireita) é advogado e candidato outsider, aparece com cerca de 18% a 28% das intenções de voto, disputando o segundo lugar com Valencia. Sua candidatura se ancora em um discurso de ruptura com o sistema político. Internamente, defende políticas de “mão dura” contra a criminalidade, maior militarização e redução de impostos, combinando conservadorismo social com liberalismo econômico.
No plano internacional, sua proposta aponta para um alinhamento com lideranças da nova direita global, com discurso semelhante ao de figuras como Bukele e Milei.
Quem vota em quem?
O perfil do eleitorado revela clivagens territoriais e sociais importantes. Iván Cepeda possui forte apoio entre classes populares, juventude urbana e movimentos sociais, especialmente em regiões como Bogotá e a costa do Pacífico (Cauca e Chocó), onde há maior presença de setores progressistas
Paloma Valencia, tem sua base concentrada em setores conservadores, empresariado e áreas rurais, com destaque para o Eje Cafetero e regiões do interior andino como Antioquia.
Abelardo de la Espriella representa um eleitorado anti-establishment e setores médios insatisfeitos, com presença relevante em áreas urbanas como Barranquilla e regiões do Caribe colombiano, além de bolsões urbanos de voto punitivista. A fragmentação da direita abre espaço para uma possível convergência no segundo turno, cenário que pode redefinir a disputa.
Campo popular apoia Cepeda e Aída
A candidatura de Iván Cepeda e de sua vice, Aída Quilcué, carrega forte simbolismo político e social. Cepeda é filho de Manuel Cepeda Vargas, assassinado durante o genocídio da União Patriótica nos anos 1980, e construiu sua trajetória na defesa dos direitos humanos e das vítimas do conflito armado. Sua figura é reconhecida por movimentos sociais e organizações populares como expressão de continuidade histórica da luta democrática na Colômbia.
Já Quilcué, liderança indígena do Cauca, representa o protagonismo dos povos indígenas, a luta contra o paramilitarismo e a defesa dos territórios. Sua presença na chapa simboliza a possibilidade de um país diverso, com participação ativa de setores historicamente excluídos.
Segundo a análise da colombiana Laura Capote, da Secretaria Continental da ALBA Movimentos, “trata-se de uma candidatura que expressa décadas de organização popular e busca não apenas continuidade, mas aprofundamento das transformações iniciadas no país”.
Impactos regionais e internacionais
O resultado das eleições colombianas terá efeitos diretos na geopolítica latino-americana. Na América Latina, uma vitória progressista reforçaria governos de esquerda e centro-esquerda, dialogando com o cenário eleitoral peruano. No Brasil, pode influenciar o debate político das eleições de 2026, especialmente em torno da integração regional.
Nos Estados Unidos, o resultado da eleição colombiana será relevante diante da renovação do Congresso e da política externa para a região. Historicamente alinhada a Washington, a Colômbia vive um momento de redefinição estratégica. O resultado das urnas indicará se o país seguirá uma trajetória de maior autonomia ou retornará a um alinhamento mais tradicional.
Um pleito decisivo
Com liderança nas pesquisas, mas enfrentando uma oposição que pode se unificar no segundo turno, Iván Cepeda entra na reta final como favorito, mas sem garantia de vitória.
Mais do que uma disputa eleitoral, o que está em jogo é o futuro do projeto político colombiano e seu papel no cenário internacional. Em um continente em transformação, o resultado de 31 de maio (ou de 21 de junho, se houver segundo turno) pode redefinir não apenas o rumo da Colômbia, mas o equilíbrio político de toda a América Latina.
Este é um artigo de opinião pessoal e não necessariamente representa a posição do conjunto do Movimento Brasil Popular

