A provável vitória no Peru e o novo Plano Condor para a América Latina

Sánchez no Peru, Petro na Colômbia e Lula no Brasil representam, cada um à sua maneira, projetos políticos comprometidos com a soberania nacional. Reprodução/Instagram

Por Giovani del Prete, militante do Movimento Brasil Popular e membro da Secretaria Continental da ALBA Movimentos

Enquanto escrevo estas linhas, a América Latina volta a ocupar um lugar central na disputa pelos rumos do sistema internacional. Em um cenário marcado pela ascensão de governos autoritários, pelo fortalecimento da extrema direita e pela reorganização da estratégia global dos Estados Unidos sob a influência do projeto MAGA de Donald Trump, nossa região converte-se novamente em território decisivo para a disputa entre soberania e dependência, democracia popular e autoritarismo, desenvolvimento nacional e submissão aos interesses externos.

A recente vitória popular no Peru, conquistada por uma margem estreita de votos, oferece uma importante lição para todo o continente. Ela demonstra que, mesmo diante de máquinas de desinformação, campanhas milionárias, perseguições políticas e da influência permanente dos setores mais conservadores, os povos latino-americanos seguem dispostos a lutar por mudanças profundas em suas condições de vida.

O caso peruano não é um fenômeno isolado. Na Colômbia, onde o povo também atravessa um intenso processo eleitoral, e no Brasil, onde seguimos enfrentando as consequências do avanço da extrema direita, a disputa não ocorre apenas entre candidatos. O que está em jogo são projetos de sociedade radicalmente distintos.

Sánchez no Peru, Petro na Colômbia e Lula no Brasil representam, cada um à sua maneira, projetos políticos comprometidos com a soberania nacional, a integração regional, o desenvolvimento econômico e a ampliação de direitos sociais. Do outro lado, Fujimori, Espriella e Bolsonaro expressam uma tradição política marcada pela subordinação aos interesses de Washington, pela militarização da política e pela aplicação das receitas neoliberais que aprofundaram a desigualdade em nossos países.

Os resultados eleitorais e as mobilizações populares demonstram que existe um profundo sentimento de indignação acumulado em nossos povos. São milhões de trabalhadores, jovens, mulheres, camponeses e povos indígenas que não aceitam mais conviver com salários insuficientes, precarização do trabalho, aumento do custo de vida e perda de direitos. Essa indignação, quando organizada politicamente, transforma-se em força social capaz de derrotar projetos autoritários.

É justamente porque percebem esse potencial que os Estados Unidos têm acelerado sua reorganização estratégica para a América Latina. Nesse contexto, dois elementos merecem atenção especial: o Hondurasgate e a iniciativa conhecida como Escudo das Américas.

Ambos revelam aspectos centrais da nova estratégia de Washington para a região. Por um lado, busca-se ampliar os mecanismos de influência política, informacional e institucional sobre os governos latino-americanos. Por outro, intensifica-se a presença militar e a cooperação em segurança sob liderança norte-americana. Os 17 novos acordos militares firmados pelos Estados Unidos com governos latino-americanos nos últimos meses apontam para uma tendência clara de militarização crescente da política continental.

Essa ofensiva não surge em um momento de força incontestável dos Estados Unidos. Pelo contrário. Ela responde justamente ao enfraquecimento relativo da capacidade de Washington de dirigir sozinho os rumos do sistema internacional. O país acumula a maior dívida pública do planeta, enfrenta uma profunda crise social marcada pelo aumento da desigualdade, pela deterioração das condições de vida de milhões de trabalhadores e pela crescente polarização política. Ao mesmo tempo, sua liderança internacional encontra-se cada vez mais questionada.

As imagens da retirada do Afeganistão em 2021 simbolizaram um duro golpe na narrativa de invencibilidade construída ao longo de décadas. Mais recentemente, os desdobramentos da guerra contra o Irã aprofundaram os questionamentos sobre a capacidade norte-americana de impor seus objetivos políticos e militares pela força. O que observamos é uma potência que segue extremamente poderosa, mas que já não exerce a mesma influência incontestável do período posterior ao fim da Guerra Fria.

Nesse contexto, a militarização da política externa cumpre uma dupla função. Busca preservar interesses estratégicos no exterior e, ao mesmo tempo, produzir demonstrações de força capazes de aliviar a crise de legitimidade enfrentada pelo próprio establishment norte-americano. A violência militar transforma-se também em instrumento de política doméstica.

Militarização e neoliberalismo não são projetos separados. São as duas faces da mesma moeda. Assim como o Plano Condor foi utilizado para garantir a implementação dos programas econômicos das ditaduras do século XX, a combinação entre controle militar, guerra informacional e neoliberalismo cumpre hoje papel semelhante no século XXI.

O objetivo estratégico permanece essencialmente o mesmo. Impedir qualquer experiência política que coloque os interesses nacionais e populares acima dos interesses das grandes corporações e do governo dos Estados Unidos.

Essa estratégia opera em três dimensões fundamentais:

A primeira é o controle da informação. A expansão do poder das plataformas digitais transformou as Big Techs em atores centrais das disputas políticas contemporâneas. A manipulação algorítmica, a disseminação de desinformação, a segmentação política de massas e a construção artificial de consensos tornaram-se instrumentos fundamentais para influenciar eleições, enfraquecer governos populares e moldar a opinião pública segundo interesses privados.

A segunda dimensão é o controle dos recursos estratégicos. Em um contexto de transição energética e disputa tecnológica global, a América Latina concentra algumas das riquezas mais importantes para o futuro da economia mundial. Lítio, terras raras, petróleo, biodiversidade, água doce e capacidade produtiva transformaram nossa região em alvo prioritário das grandes potências. O interesse crescente sobre esses recursos ajuda a explicar boa parte das pressões econômicas, diplomáticas e políticas exercidas contra governos que defendem maior soberania nacional.

A terceira dimensão é a contenção de qualquer projeto político que busque ampliar a autonomia dos povos latino-americanos. Sempre que surgem iniciativas de integração regional, fortalecimento do Estado, controle nacional dos recursos estratégicos ou ampliação de direitos sociais, cresce também a ofensiva política, econômica, midiática e judicial contra essas experiências.

Nesse processo, o complexo industrial-militar, as grandes petroleiras e as Big Techs formam uma poderosa aliança de interesses. Trata-se dos setores mais influentes da economia norte-americana, profundamente beneficiados pela expansão da presença militar, pelo controle de mercados estratégicos e pela captura dos fluxos globais de informação. São eles que constituem a espinha dorsal do que poderíamos chamar de Plano Condor do século XXI.

É nessa chave que devem ser compreendidas as agressões contra os povos que insistem em defender sua soberania. A escalada contra a Venezuela, os bloqueios, as sanções, as operações de desestabilização e as diversas formas de intervenção externa não são episódios isolados. Da mesma forma, a ofensiva permanente contra Cuba, que impõe enormes dificuldades econômicas e humanitárias ao povo da ilha, integra uma estratégia mais ampla destinada a demonstrar força, disciplinar governos insubmissos e enviar mensagens a toda a região.

O que está em disputa não é apenas o futuro de Caracas ou Havana. O que está em disputa é o direito dos povos latino-americanos de decidir soberanamente seus próprios destinos, controlar suas riquezas naturais e construir alternativas ao modelo de dependência historicamente imposto por Washington.

Por isso, a integração latino-americana deixa de ser apenas uma aspiração histórica para tornar-se uma necessidade estratégica. Nenhum país da região possui condições de enfrentar isoladamente as pressões econômicas, militares e tecnológicas das grandes potências. A cooperação regional é o único caminho capaz de ampliar nossa capacidade de negociação, proteger nossos recursos e construir um modelo de desenvolvimento voltado para as necessidades de nossos povos.

A vitória popular no Peru, assim como as lutas em curso na Colômbia, no Brasil e em todo o continente, demonstra que a história permanece aberta. O adversário é poderoso. Possui recursos financeiros, influência militar e enorme capacidade de comunicação. Mas não é invencível.

A própria história da América Latina prova isso. Cada direito conquistado, cada avanço democrático, cada experiência de soberania nacional nasceu da organização popular e da persistência daqueles que se recusaram a aceitar a dominação como destino.

Onde há luta, existem melhores condições de vitória. E é justamente porque seguimos lutando por dignidade, justiça social, soberania e futuro para nossas famílias e nossos países que a América Latina continua sendo um dos territórios decisivos para os rumos do século XXI.

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a posição do Movimento Brasil Popular

Deixe um comentário