
A Escola Nacional Paulo Freire (ENPF) sediou, na segunda-feira (15), um ato que marca um salto de qualidade na trajetória das cozinhas populares e solidárias da Região Metropolitana de São Paulo: a entrega de 318 toneladas de proteína animal, carne suína e pescado, pelo Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Esses alimentos irão abastecer dezenas de cozinhas populares e solidárias organizadas pelo Movimento Brasil Popular (MBP) na capital paulista.
A conquista é resultado da mobilização do MBP, que, em 2025, realizou a jornada de lutas “Taxar os super-ricos, alimentar o país”, quando ocupou a sede da Companhia Nacional De Abastecimento (Conab), pautando a distribuição de proteínas para as cozinhas. A ação desta semana também consolida uma parceria inédita entre o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), a Conab e a Fundação Banco do Brasil (FBB).
Além dos alimentos, o ato marcou a assinatura de convênios para a implantação de câmaras frias e painéis solares nas unidades, garantindo infraestrutura para o recebimento e distribuição dos produtos. Um dos convênios destinará R$ 5,6 milhões para o apoio direto a 46 cozinhas solidárias.
Desde o surgimento das cozinhas, em 2020, a aquisição de proteína sempre foi um desafio, já que não é um alimento que tem armazenamento e transporte simples, como os demais que compõem as refeições.
Por isso, a chegada da proteína animal em São Paulo não foi uma conquista apenas para as cozinhas, mas para a própria dinâmica do PAA, já que a cidade enfrentava um gargalo logístico que impedia as entregas. Foi o Movimento Brasil Popular que colocou o tema na centralidade da agenda, junto às cozinhas e à Conab.
David Martins, da coordenação nacional do MBP, explica o processo: “Desde o início do programa Cozinha Solidária, o tema da entrega do PAA foi uma construção de muita parceria junto à Conab, ao MDS e às organizações sociais. A gente precisava ampliar o programa de aquisição de alimentos, que já vinha subsidiando com a entrega de arroz, feijão, frutas, legumes e verduras, mas tinha ainda uma lacuna grande no estado de São Paulo, que era a entrega de proteínas.”
Foi a Jornada de Lutas de outubro do ano passado que acelerou as negociações e abriu caminho para superar as questões logísticas necessárias para o transporte de proteína entre estados. “A entrega demonstra esse afinamento entre nós do movimento, as diversas organizações, as cozinhas e a Conab, em parceria com a Fundação Banco do Brasil”, avalia David Martins.
Agora, a Cozinha da Escola Nacional Paulo Freire passa a funcionar também como banco de alimentos para redistribuição na capital paulista. Para David, a ampliação da função da ENPF faz todo o sentido com a sua missão e atuação: “Amplia ainda mais a referência da nossa Escola Nacional Paulo Freire como um espaço de luta popular, de acesso a direitos e de uma relação orgânica do que a gente está chamando de ‘parceria público-popular’”.
Ana Larissa, da Cozinha Popular Dona Nega, resume a trajetória: “Em outubro do ano passado, ocupamos a Conab em São Paulo e, agora, conquistamos a proteína que a gente tanto lutou para conquistar”, relembra a liderança de uma da cozinhas que fica na zona oeste de São Paulo e que será beneficiada.
O ato na Escola Nacional Paulo Freire reuniu, além das lideranças comunitárias que organizam as cozinhas populares, representantes de ministérios e instituições que firmaram os convênios. Para Sílvio Porto, presidente da Conab, o evento expressou uma articulação que vai além do abastecimento: “É uma articulação entre o PAA e o Programa Cozinha Solidária, uma política que tem enraizamento, legitimidade e gênese popular.”
Para Lilian Rahal, secretária nacional de Segurança Alimentar e Nutricional do MDS, as cozinhas chegam nos lugares onde o Estado não consegue chegar sozinho. Ela ressaltou o papel das cozinhas solidárias como “iniciativas da sociedade civil que estão imbuídas de fazer com que a alimentação saudável chegue às periferias.”
Ana Terra Reis, secretária de Abastecimento, Cooperativismo e Soberania Alimentar do MDA, lembrou o papel histórico dessas estruturas: “No momento mais difícil, foram as cozinhas populares que levaram comida para quem mais precisava nesse país.”
André Machado, presidente da FBB, destacou a importância da proteína na alimentação: “A proteína é fundamental no prato do brasileiro e é assim que possibilitamos que as cozinhas solidárias tenham acesso a ela.”
Este primeiro ciclo de entregas prevê cerca de 14 toneladas de proteína para as cozinhas em São Paulo, um volume que precisa aumentar, mas que representa um avanço concreto. “É uma conquista importante e a luta do PAA, é aquela luta do orçamento, da prioridade da agricultura familiar na agenda governamental, do fortalecimento das políticas públicas de combate à fome”, finaliza David Martins.
Texto: Vanessa Gonzaga e Caio Pagliarini

