Lula eleito com a força das redes e das ruas! Os desafios das forças populares diante de um novo ciclo de lutas sociais no Brasil

A vitória de Lula e do povo brasileiro posicionaram o Brasil como símbolo mundial de enfrentamento à extrema direita
Foto: Ricardo Stuckert
  1. No dia 25 de outubro de 2026, Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito para seu quarto mandato presidencial, conquistando 64,2 milhões de votos — 10,3 milhões a mais do que no primeiro turno. Nunca, na história da República, um candidato à Presidência havia protagonizado uma virada dessa magnitude entre o primeiro e o segundo turno. Tampouco um candidato havia alcançado uma votação tão expressiva. A vitória foi acompanhada por uma redução recorde da abstenção, com quase três milhões de eleitores a mais comparecendo às urnas, além da diminuição de aproximadamente dois milhões de votos brancos e nulos. Esses números evidenciam o alto grau de participação popular e o caráter de mobilização nacional da disputa eleitoral. 
  2. O significado histórico da vitória de Lula é ainda maior se analisarmos o cenário de profunda instabilidade internacional e de ofensiva do imperialismo sobre a América Latina com a chamada “Doutrina Donroe”. Diante da ascensão da China no cenário internacional, Trump retoma a política de esferas de influência, buscando reafirmar o domínio dos Estados Unidos sobre a América Latina e exercer controle direto sobre a região. Essa orientação se traduziu em uma série de iniciativas ao longo de 2026: o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro, o início da guerra contra o Irã e o aprofundamento do cerco econômico e político a Cuba. Além disso, desde que assumiu seu segundo mandato, Trump intensificou a intervenção norte-americana nos processos eleitorais latino-americanos, buscando favorecer forças políticas alinhadas a Washington entre elas representantes da direita e da extrema direita no Equador, Bolívia, Argentina, Chile, Honduras, Costa Rica, Colômbia e Peru. 
  3. Vencer as eleições brasileiras era estratégico para o imperialismo norte-americano, seja pela relevância política e econômica do Brasil na região, seja pela abundância de bens naturais estratégicos, como as terras raras, presentes no país. A intervenção do imperialismo se expressou, em especial, nas tentativas de manipulação eleitoral por parte da Meta, favorecendo de forma explícita a candidatura de Flávio Bolsonaro. Ainda assim, a ofensiva de Trump e de inimigos internos poderosos — como o mercado financeiro, grande parte da burguesia interna, com destaque para o agronegócio e os grandes grupos da imprensa comercial, parcelas significativas da alta classe média, e o fundamentalismo religioso  — foi derrotada. 
  4. A vitória de Lula e do povo brasileiro posicionaram o Brasil como símbolo mundial de enfrentamento à extrema direita. Isso ficou demonstrado nas diversas manifestações mundo afora, em que milhares de pessoas “fizeram o L”, simbolizando a resistência ao fascismo, impactando inclusive a eleição de meio mandato dos Estados Unidos, com a campanha “vote como os brasileiros”, ajudando a impor uma estrondosa derrota a Donald Trump e ao Partido Republicano, que perdeu a maioria do Senado e da Câmara. Além disso, a gigantesca vitória política no Brasil contribuiu para esperançar e estimular movimentos antifascistas em outros países que disputarão seus processos eleitorais em breve, como a Espanha, a França e a Argentina. 
  5. A vitória histórica de Lula só foi possível graças a uma gigantesca mobilização popular, que tomou as redes sociais e as ruas de todo o país. A luta eleitoral extrapolou os limites institucionais e se converteu em uma verdadeira luta de massas, marcada por grandes mobilizações e pelo engajamento de novos setores populares. Alguns fatores foram particularmente decisivos para esse resultado. Primeiro, o levante espontâneo da juventude, que marcou a entrada em cena de uma nova geração na luta política, combinado com a atuação de outros setores da sociedade, como artistas, idosos, religiosos, e o trabalho popular nas periferias.  Segundo, a mudança na dinâmica de atuação do campo democrático e popular nas redes sociais, com o fortalecimento do chamado “exército do Lula”, liderado pelo deputado federal André Janones, ampliando significativamente a capacidade de mobilização da esquerda nas redes. Terceiro, as mudanças na estratégia política e na coordenação da campanha presidencial, incorporando ex-governadores do Nordeste e adotando uma linha política mais ofensiva contra Flávio Bolsonaro. E, quarto, a inflexão programática da campanha presidencial, incorporando propostas como o fim das Bets, o reajuste do Bolsa Família, Pé-de-meia universitário, medidas de apoio aos MEIs, o fim da escala 6×1 e a Tarifa Zero.
  6. Os 10,3 milhões de votos adicionais conquistados por Lula no segundo turno vieram, sobretudo, dos trabalhadores das periferias dos grandes centros urbanos, mobilizados pelo receio de perder direitos sociais diante do “tesouraço” de Flávio Bolsonaro. Também foram decisivos o sentimento de autodefesa de mulheres, negros e negras, pessoas LGBTQIA+ e idosos, que carregavam a memória histórica da experiência trágica do governo Jair Bolsonaro, além da participação de jovens que foram às ruas disputar os rumos e o futuro do país.
  7. A mudança no ânimo das massas e o crescimento da disposição de luta da classe trabalhadora brasileira não surgiram do nada. São expressões de transformações moleculares acumuladas nos últimos anos, impulsionadas pela retomada de políticas sociais, pela redução do desemprego e pelo aumento real do salário mínimo. Somam-se a isso pequenas, mas importantes vitórias políticas e ideológicas que sinalizaram alterações na conjuntura e na correlação de forças na sociedade: a derrota imposta pelo movimento feminista ao então presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira; a mobilização em torno do Plebiscito Popular por um Brasil mais Justo; a mudança de postura do governo Lula diante do tarifaço de Donald Trump; a prisão de Jair Bolsonaro; a derrota da PEC da Blindagem; e a aprovação da isenção do Imposto de Renda para os trabalhadores que recebem até R$ 5 mil.
  8. O conjunto desses acontecimentos revela que a vitória de Lula não foi um episódio isolado. Ela expressa um processo mais amplo de reorganização da sociedade, de retomada da iniciativa política dos setores populares e de alteração na correlação de forças na sociedade. A tarefa que se coloca agora é transformar essa energia acumulada nas ruas e nas urnas em organização popular permanente, capacidade de mobilização e força política suficiente para avançar nas mudanças estruturais de que o país necessita.

Um novo ciclo de lutas sociais

  1. A vitória do presidente Lula, impulsionada por gigantescas mobilizações de massa, comparáveis em dimensão apenas às campanhas das Diretas Já! e do Fora Collor, indica que estamos diante da abertura de um novo ciclo de lutas sociais no Brasil. Um período marcado pela possibilidade de transição de uma situação de equilíbrio instável de forças para uma correlação de forças mais favorável à classe trabalhadora, criando condições para a construção de uma nova maioria política e social no país.
  2. Mais do que uma vitória eleitoral, esse processo revelou o surgimento de novas energias políticas e uma disposição renovada de luta de amplos setores populares, particularmente da juventude. Trata-se de uma nova geração que ingressa na disputa política, ao mesmo tempo que setores historicamente mobilizados retomam a iniciativa e ampliam sua capacidade de intervenção. Abre-se, assim, a possibilidade de um novo ciclo de mobilização, participação e organização popular, capaz de ultrapassar os limites da disputa eleitoral e produzir mudanças mais profundas na sociedade brasileira.
  3. A continuidade desse processo de mobilização dependerá, fundamentalmente, da capacidade do campo democrático e popular de organizar essas novas energias políticas, construir instrumentos permanentes de participação, dotar esse movimento de organicidade, linhas de massas e apresentar um programa de transformações que dê consequência política à mensagem das urnas e das ruas. O desafio central do próximo período será transformar a gigantesca vitória eleitoral e a disposição de luta demonstrada pelo povo brasileiro no segundo turno em força social organizada, capacidade de disputa política e construção de uma nova maioria política e social. Uma maioria capaz de sustentar um projeto de mudanças estruturais, enfrentar os interesses das classes dominantes e abrir caminho para novas conquistas da classe trabalhadora.

Da governabilidade institucional à governabilidade popular

  1. A construção de uma governabilidade popular no governo Lula constitui uma dimensão fundamental para sua sustentação política e para a realização de seu programa de mudanças. Trata-se de articular a governabilidade institucional à participação ativa, organizada e permanente da sociedade, ampliando a capacidade de mobilização e pressão popular sobre o Congresso Nacional.
  2. A vitória de Lula nas urnas expressa uma forte expectativa popular de ampliação de direitos e conquistas sociais. A geração de empregos, a valorização do salário mínimo, a distribuição de renda, a redução das desigualdades e a melhoria das condições de vida devem estar no centro das prioridades do governo. Para isso, é necessário construir uma relação permanente entre governo e sociedade civil organizada, fortalecendo os instrumentos de participação popular e criando condições políticas e sociais para enfrentar as resistências dos setores que se opõem às transformações necessárias ao país.

Disputa dos rumos da política econômica

  1. A disputa dos rumos da política econômica constitui um dos principais desafios do próximo período. O atual Arcabouço Fiscal apresenta limitações estruturais que restringem a capacidade de investimento do Estado e a expansão das políticas públicas, impondo condicionantes à realização de um projeto nacional de desenvolvimento econômico com inclusão e participação social.
  2. A transição para uma regra fiscal mais flexível e comprometida com o desenvolvimento constitui uma orientação necessária para ampliar a capacidade de investimento público e assegurar a expansão dos direitos sociais. É preciso superar a lógica de subordinação das políticas públicas às restrições fiscais, construindo mecanismos que compatibilizem a responsabilidade na gestão das contas públicas com as necessidades do desenvolvimento econômico, da redução das desigualdades e do fortalecimento do Estado.
  3. A redução das taxas de juros e a construção de uma política macroeconômica orientada ao crescimento, à geração de empregos, à distribuição de renda e à soberania nacional também são elementos centrais dessa estratégia. O desafio é subordinar os instrumentos da política econômica aos objetivos de desenvolvimento nacional e melhoria das condições de vida da população, enfrentando os interesses rentistas e a hegemonia do capital financeiro sobre as decisões econômicas do país. Isso exige uma disputa política capaz de construir apoio social para uma nova orientação econômica.

O fortalecimento do Partidos dos Trabalhadores.

  1. O fortalecimento do PT é uma condição estratégica para a construção de uma nova maioria política e social no país. O desafio é superar os atuais limites partidários, construindo uma estratégia política adequada ao novo momento político e recuperando a capacidade de organização, formação e mobilização da militância.
  2. Isso exige ampliar a presença do partido nos territórios, democratizar a estrutura partidária, fortalecer os núcleos de base e a atuação junto aos movimentos sociais e demais organizações populares. É necessário retomar uma política permanente de organização e formação de militantes, ampliar as campanhas de filiação e criar condições para incorporar às fileiras partidárias os novos setores que ingressaram na luta política durante o processo eleitoral.
  3. Paralelamente, é fundamental atualizar o programa partidário, construindo uma estratégia política superior e incorporando as transformações no mundo do trabalho, os desafios da transição ecológica, o enfrentamento do racismo e do patriarcado e as novas demandas da juventude. O PT precisa fortalecer sua identidade como instrumento político da classe trabalhadora e da maioria do povo brasileiro, articulando sua atuação institucional ao fortalecimento da organização popular.

Unidade política e construção de uma Frente Popular

  1. A constituição de uma Frente Popular representa uma necessidade estratégica para o campo democrático e popular. Seu objetivo deve ser construir uma unidade política e social capaz de enfrentar a extrema direita, defender a democracia e a soberania nacional e criar condições para avançar nas transformações estruturais de que o país necessita.
  2. Essa frente deve articular partidos políticos, movimentos sociais, organizações sindicais, juventude, entidades estudantis, organizações populares e demais setores comprometidos com um projeto nacional, democrático, popular de desenvolvimento. Mais do que uma aliança pontual, deve constituir um espaço permanente de articulação política, mobilização social, elaboração programática e ação coletiva. 
  3. A construção dessa unidade exige reconhecer a diversidade dos sujeitos políticos e sociais que compõem o campo democrático e popular, estabelecendo uma plataforma comum em torno da defesa da soberania, da democracia, dos direitos sociais, da valorização do trabalho e da redução das desigualdades.
  4. Como primeiro passo, propomos a realização de plenárias amplas nos estados, envolvendo partidos, movimentos sociais, sindicatos, organizações populares e militância, para debater os desafios da conjuntura, formular uma agenda comum e construir coletivamente os caminhos para a constituição de uma Frente Popular. Esse processo deve partir da base, estimular a participação da militância e criar condições para que a unidade política se traduza em organização e mobilização permanente.

Bandeiras de luta

  • Soberania nacional e digital: Defesa da autodeterminação do Brasil, de suas riquezas naturais e estratégicas e de sua autonomia tecnológica. Proteção dos dados nacionais, regulação democrática das plataformas digitais, enfrentamento dos monopólios tecnológicos e redução da dependência externa em setores estratégicos, além da regulamentação das redes sociais.
  • Em defesa da política econômica comprometida com o desenvolvimento nacional: Assegurar a implementação da orientação econômica vitoriosa nas urnas, defendendo a revisão e a flexibilização das regras do Arcabouço Fiscal para ampliar a capacidade de investimento público. Priorizar investimentos em setores estratégicos da economia, infraestrutura e políticas sociais, especialmente habitação, mobilidade urbana, reforma agrária, saúde, educação, ciência e tecnologia.
  • Participação social e multiplicação dos agentes populares: Ampliar os mecanismos de democracia participativa, promovendo a formação e a multiplicação de agentes populares nos territórios. Fortalecer a organização comunitária, a educação popular, os espaços de participação e a capacidade de intervenção da população nas decisões sobre as políticas públicas.
  • Tarifa zero no transporte público: Defender a gratuidade do transporte coletivo como direito social e instrumento de democratização do acesso à cidade, redução das desigualdades e melhoria das condições de vida da classe trabalhadora. Construir um modelo de financiamento público que assegure transporte de qualidade, universal e acessível.
  • Reforma política e democratização do Estado: Defender uma reforma política que amplie a participação popular, fortaleça a representação democrática, combata a influência do poder econômico nas eleições e enfrente as desigualdades de representação. Ampliar os instrumentos de democracia direta e participativa e fortalecer a presença dos trabalhadores e dos setores populares nos espaços de decisão.
  • Reforma do Judiciário: Defender a democratização do sistema de Justiça, ampliando sua transparência, controle público, acesso popular e compromisso com os direitos fundamentais. Combater os privilégios, fortalecer os mecanismos de prestação de contas e assegurar uma Justiça independente, acessível e comprometida com a igualdade perante a lei.
  • Luta contra as Bets e defesa da economia popular: Defender a proibição das plataformas de apostas esportivas e jogos de azar on-line, enfrentando a exploração econômica das famílias trabalhadoras, o endividamento popular e a transformação do entretenimento em mecanismo de transferência de renda para grandes grupos econômicos.
  • Redução dos preços dos alimentos e dos combustíveis: Defender políticas públicas de abastecimento e segurança alimentar, fortalecimento da agricultura familiar, ampliação dos estoques reguladores e combate à especulação nos preços dos alimentos. Nos combustíveis, defender uma política de preços comprometida com a soberania energética, a proteção dos consumidores e a redução dos custos de produção, transporte e distribuição.
  • Contra a anistia aos golpistas: Defender a responsabilização dos envolvidos nas tentativas de ruptura democrática e nos ataques à ordem constitucional, com respeito ao devido processo legal. Rejeitar qualquer medida de anistia que promova a impunidade e estimule novas ameaças à democracia brasileira.

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