
Feira reuniu expositores e expositoras de todas as regiões do país. Crédito: Vanessa Gonzaga
Dentro da programação do Encontro Nacional de Agentes Populares, realizado em Brasília de 4 a 7 de junho, uma feira ocupa um espaço que vai além da comercialização de produtos. É a Feira de Economia Popular e Solidária, que reuniu mais de 25 expositores e expositoras que representam coletivos, associações e grupos de produtores de diferentes regiões do Brasil trazendo artesanato, vestuário, plantas, alimentos e muito mais. Para deles, o espaço representa uma oportunidade de vender, aprender e se conectar com outros trabalhadores da economia solidária num espaço nacional.
O evento, organizado pelo Movimento Brasil Popular, reuniu mais de 1000 agentes populares de 22 estados para discutir políticas públicas e construir caminhos para a promoção de direitos nas periferias brasileiras. A feira integra essa proposta de forma concreta transformando o Encontro em um espaço também de circulação econômica e intercâmbio entre produtores populares.
Entre as feirantes, a mineira Cida Badu trouxe sua arte em acessórios — brincos, colares e peças exclusivas, como um colar de corpo que, como ela mesma descreve, “abraça o corpo todo”. Além das peças de uso cotidiano, Cida também produz acessórios para o Carnaval e mantém, no bairro Mariano de Abreu, em Belo Horizonte, a Casa Canto, espaço cultural onde planeja oferecer oficinas de reaproveitamento de materiais para fazer acessórios.
A trajetória de Cida na economia popular e solidária começou de forma inesperada. “Comecei para não enlouquecer”, conta ela, que criava acessórios para si mesma enquanto cuidava da mãe com Alzheimer. Depois das primeiras encomendas vieram as participações em feiras e o que era um passatempo se consolidou como um trabalho. “Quando minha mãe faleceu, fiquei meio perdida. Mas pensei: não, eu já tenho esse caminho, tenho esse dom,”relembra.

Para Cida, além da alta no faturamento, o intercâmbio de experiências é um diferencial da Feira. Foto: Marta Gomes
A participação na feira do Encontro teve um impacto direto no seu empreendimento. “As vendas aqui me salvaram. Eu já estava preocupada, pensando em como comprar material, porque os preços aumentaram muito. E aqui foi impressionante. As pessoas chegavam, olhavam, gostavam e nem questionavam o preço”, disse Cida, que já está se preparando para a produção de materiais para o Carnaval de 2027.
O retorno não foi só financeiro. A feira também é um espaço de intercâmbio de conhecimento sobre processos, materiais e tudo o que envolve o trabalho artesanal. “Essa troca de experiências e de conhecimento é muito importante. Estou saindo daqui muito feliz com tudo o que aprendi.”
A satisfação também é uma das sensações relatadas por Tamyres Lima, do Ceará, que faz peças de fuxico, um ofício que aprendeu ainda criança com uma tia, com quem passou a infância fazendo tapetes na calçada de casa. Depois de adulta, retomou a atividade para desestressar e presentear amigas, até que uma encomenda fez Tamyres refletir: “Tive um estalo: achei que dava para vender.” Desde a pandemia,ela transformou o hobby em fonte de renda.
A feira do Encontro foi sua estreia como expositora e superou as expectativas. “Vendi aqui na feira o que talvez eu tenha vendido no ano passado inteiro”, relata. Além do resultado nas vendas, Tamyres destaca o que aprendeu com feirantes mais experientes, especialmente a precificar o próprio trabalho. “A gente aprende muitas coisas, inclusive a conseguir dar valor e colocar preço no próprio trabalho, que é uma coisa com a qual eu ainda tenho dificuldade”, revela ela.

Essa foi a primeira participação de Tamyres numa Feira. Foto: Marta Gomes
Para a artesã, a Feira e o encontro de produtores de todo o Brasil foi também uma janela para a diversidade da produção popular nacional. “Além de conhecer o trabalho de gente do Brasil inteiro, né? Foi incrível”, avalia.
É através de políticas de incentivo à economia solidária que mulheres como Tamyres e Cida podem expandir o alcance da sua produção e ter um um espaço de visibilidade, de formação e de construção coletiva. A Feira de Economia Popular e Solidária e o I Encontro Nacional de Agentes Populares contaram com o apoio do Ministério do Desenvolvimento Social, Ministério do Trabalho e Emprego, Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Ministério da Igualdade Racial, Ministério da Saúde, Ministério da Cultura, Ministério do Desenvolvimento Agrário, Fundação Oswaldo Cruz, Universidade de Brasília e o patrocínio Fundação Banco do Brasil do Governo do Brasil.

