Ronaldão, presente! De jovem da Cruzeiro a fundador de um sonho coletivo

É com imenso pesar que anunciamos a partida do nosso companheiro Ronaldo Schaeffer, nosso Ronaldão.

Ronaldão, assim como milhões de jovens, foi uma cria da periferia brasileira. Passou a maior parte da sua vida morando em diferentes barracos da Vila Cruzeiro, em Porto Alegre-RS. Filho de mãe solo, analfabeta, Dona Maria lutou contra todas as adversidades para dar o mínimo de dignidade à ele e seus dois irmãos.

Ronaldão foi um daqueles guris que a gente encontra em toda periferia e pensa: esse menino só precisa de uma oportunidade. E a organização deu essa oportunidade para ele! 

Foi na organização popular que Ronaldão rompeu o ciclo de violência que toda a família dele foi vítima. Foi na organização popular que ele pôde estudar, se formar, conhecer o Brasil inteiro e levar uma mensagem de esperança para outros jovens sem qualquer perspectiva de vida.

Ronaldão fez a gente acreditar que era possível construir uma organização que reunisse a heterogeneidade da classe trabalhadora, juntando a juventude da periferia com a juventude da universidade! Se o Levante Popular da Juventude existe hoje é porque ele colocou uma mochila nas costas e rodou o país contando a sua história e fazendo com que muitos jovens se reconhecessem e acreditassem que eram capazes. Eles só precisavam de uma oportunidade e de um Projeto Político. 

A contribuição de Ronaldão transbordou para além do Levante. A sua capacidade de agitação, de mobilização e de análise influenciou as organizações do campo popular. Ronaldão formou uma geração sobre a importância do trabalho de base nas periferias, com as palavras, o jeito da periferia, sem perder o conteúdo revolucionário  e o horizonte  político.

Ronaldão fez de tudo. Foi agitador, educador popular, assessor parlamentar, coordenador de campanha! Foi um organizador do povo! Se doou como poucos se doam. Não tinha tarefa que não fosse dada que ele não dava um jeito de cumprir! Nos lugares mais improváveis e com as condições mais adversas, estava lá desenhando um plano, uma estratégia. Seu carisma e capacidade política contagiavam a todos em volta.

Quando a sua mãe partiu, algo se rompeu na alma do Ronaldão. Ele repetiu a si mesmo e a nós todos, que agora não havia mais ninguém que o esperava. Desde então acompanhamos uma luta que se encerrou ontem. Uma luta entre luto, solidão, perdas, desamparo, álcool, remédios, em um ciclo cada vez mais penoso. Ontem ele mesmo pausou esse ciclo. Ele mesmo não aguentou mais seguir assim. E hoje estamos chorando essa derrota. 

A derrota da perda de humanidade que a desigualdade é capaz de produzir. A perda de potencialidades humanas, embotadas, descoloridas pelas nuances da pobreza. Hoje o projeto de povo, de país, perdeu um lutador. Amanhã, teremos de respirar e continuar, porque há Ronaldos por aí, precisando de um destino, de um futuro, mas esse futuro precisa ser coletivo, social, de um país que não mais permitirá deixar seus jovens pelo caminho. 

Apesar dessa dura perda, o seu legado não desaparecerá, estará presente nas memórias e nas ações de uma geração de militantes que se encantou com a luta do povo brasileiro através do seu exemplo.

Essa nota não consegue expressar a dor que sentimos pela perda. Também não consegue expressar o agradecimento por sua luta. Se muitos de nós nos tornamos militantes, aprendemos dedicar a nossa vida pelo povo brasileiro, é porque Ronaldo nos inspirou. 

Ronaldão, Presente, Presente, Presente!

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