Entre uma consulta marcada e uma fila de espera, milhões de brasileiros vivem diariamente o que significa, na prática, o direito à saúde. Celebrado em 7 de abril, o Dia Mundial da Saúde é mais do que uma data simbólica: é um chamado para refletir sobre as escolhas políticas que sustentam — ou fragilizam — esse direito. Essas escolhas ficam evidentes nas diferenças entre projetos de governo, nas políticas desmontadas e na reconstrução do Sistema Único de Saúde (SUS).
Em 2026, manter a memória viva é essencial para compreendermos os caminhos que nos trouxeram até aqui, responsabilizar decisões que impactaram a vida da população e orientar, com consciência histórica, a defesa e o fortalecimento do SUS como política pública de Estado.
Neste ano, recordamos os 10 anos do golpe contra a presidente Dilma que abriram um triste período de retrocessos sociais e democráticos no Brasil, sob os governos Temer e Bolsonaro. Nesse período, os investimentos em saúde e educação foram congelados por meio do “Teto de gastos”, agravando o subfinanciamento crônico do SUS. As condições de vida da população pioraram, trazendo o aumento da mortalidade infantil, a redução da cobertura vacinal e o reaparecimento de doenças como o sarampo.
A resposta do governo Bolsonaro à pandemia de Covid-19, por meio de medidas negacionistas e genocidas, gerou mais de 700 mil mortes, reduziu ainda mais as taxas de vacinação, sobrecarregou o sistema de saúde e trouxe acúmulo de demandas assistenciais. Se não fosse o SUS na pandemia, o estrago teria sido bem maior. Assim, em 2026, o tema escolhido pela Organização Mundial da Saúde para comemorar o 7 de abril, é “Juntos pela saúde. Fique com a ciência” é muito adequado para a realidade nacional.
Com a eleição de Lula em 2022, o Brasil volta a respirar: os investimentos em saúde e educação passam a ser descongelados e ampliados, gerando maior qualidade nos serviços do SUS e acesso à população. Novas equipes de Saúde da Família foram criadas e qualificadas, trazendo mais médicos e equipes multiprofissionais para as Unidades Básicas de Saúde – ou “postos de saúde”, como são conhecidos. Todos os medicamentos do Programa Farmácia Popular passaram a ser disponibilizados de forma gratuita. O Programa “Agora Tem Especialistas”, uma marca do governo atual, reduziu o tempo de espera por consultas especializadas, exames, procedimentos e cirurgias, especialmente no âmbito da saúde da mulher e do combate ao câncer.
O terceiro mandato do presidente Lula também foi marcado pelo combate à desinformação na saúde e pelo aumento da cobertura vacinal, incluindo, inclusive, a vacina da dengue no SUS, desenvolvida no Brasil com tecnologia nacional. Em 2026, o Brasil alcançou as menores taxas de mortalidade neonatal e em crianças abaixo dos cinco anos dos últimos 34 anos, reflexo da expansão e reinvestimento no SUS, especialmente na Estratégia Saúde da Família.
Após 38 anos de existência, o SUS acumula diversos êxitos e superlativos: possui os maiores programas de HIV/AIDS, de imunização e de transplantes do mundo; possui um robusto serviço de atendimento móvel a urgências – o SAMU; a Reforma Psiquiátrica avançou com o fechamento de manicômios e o cuidado de pessoas em sofrimento mental em liberdade, em bases comunitárias e em respeito aos direitos humanos. Em 6 de abril de 2026, comemoramos os 25 anos da Lei 10.216/2001, a lei da Reforma Psiquiátrica.
O SUS, além de ser para todos, também reconhece as necessidades em saúde de cada grupo populacional e território, agindo com equidade para enfrentar injustiças. Qual outro sistema de saúde do mundo possui uma rede de dezenas de unidades de saúde fluviais para atender a populações ribeirinhas? E o atendimento 100% gratuito a estrangeiros?
O SUS sobreviveu a quase quatro décadas de Neoliberalismo e assistiu ao desmonte de sistemas universais de saúde na Europa ocidental. Hoje, o SUS é o único sistema universal de saúde de um país com uma população maior que 100 milhões de habitantes.
É evidente que o SUS também se depara com grandes desafios que se refletem na precariedade e desassistência de muitos dos seus serviços. O subfinanciamento crônico e a articulação público-privada que rapina, drena recursos públicos e promove iniquidades talvez sejam os maiores problemas a serem enfrentados. Além disso, temas como a regionalização, a atenção especializada, a formação de força de trabalho em saúde, a humanização do cuidado, a qualificação da gestão, a valorização dos trabalhadores, a desprecarização de vínculos e a constituição de uma carreira no SUS são fundamentais para a consolidação do sistema.
O SUS também é permeado por interesses de setores que buscam lucrar com a saúde, como grandes grupos econômicos que envolvem empresas de planos privados de saúde, hospitais e laboratórios privados, clínicas “populares”, indústria farmacêutica e de equipamentos. Esses grupos financiam campanhas e formam poderosas bancadas no parlamento, influenciam gestores do SUS, drenam a força de trabalho especializada e tensionam uma segmentação em nosso sistema de saúde entre ricos e pobres.
O Congresso Nacional tem sido uma arena de disputa de interesses empresariais e fisiológicos na saúde. Para o orçamento de 2026, R$ 61 bilhões serão destinados a emendas parlamentares, sendo metade destinadas à saúde. Essa delegação de autoridade ao Legislativo enfraquece significativamente a transparência e a eficiência na distribuição dos recursos, já que muitas vezes as decisões dos parlamentares seguem critérios políticos em vez de fundamentos técnicos.
Mais recentemente, o PL 4741/2024, de autoria do Deputado Dr. Luizinho (PP/RJ), ameaça o SUS ao propor extinguir a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (CONITEC). Essa medida poderá tirar a autonomia do sistema na avaliação isenta e científica de tecnologias para a incorporação em seus serviços, em prol de interesses empresariais, o que poderá trazer sérios riscos à nossa soberania nacional e sanitária.
Além disso, o avanço das apostas online (Bets) têm promovido um grande desserviço em termos de empobrecimento da população, especialmente usuários de Bolsa Família, já superando atualmente os juros no endividamento das famílias, provocando impactos severos à saúde mental. A CPI das Bets no senado, a qual teve o seu relatório final rejeitado, escancarou o compromisso da maioria dos parlamentares com os interesses dessas empresas de aposta, em detrimento à saúde e à vida da população
Para coroar a situação atual do Congresso Nacional, o atual presidente da Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados é o deputado Giovani Cherini (PL-RS), o qual já alegou que a vacina do HPV causa cegueira e defendeu o uso de ivermectina, um remédio pra sarna, contra a Covid, uma doença causada por vírus.
Frente a esse cenário, para fortalecer o SUS e evitar retrocessos, é necessário criar uma força social de massas na sociedade enraizada e consciente que sustente o projeto histórico da Reforma Sanitária Brasileira. Duas iniciativas do Governo Federal têm atuado nesse sentido: O programa de agentes de educação popular em saúde (AgPopSUS) e o Vivências e Estágios na Realidade do SUS (VER-SUS).
O AgPopSUS é uma estratégia inovadora de fortalecimento da participação popular em saúde, contribuindo para a mobilização das comunidades e dos movimentos sociais populares para enfrentar coletivamente problemas que afetam a saúde e as condições de vida nos territórios. Os agentes articulam redes solidárias para a promoção da saúde e apoio mútuo, realizam atividades educativas sobre a prevenção de doenças, fortalecem o diálogo entre a comunidade e serviços do SUS, resgatam e reafirmam práticas populares de saúde.
O VER-SUS é uma iniciativa de fortalecimento do movimento estudantil e de residentes em saúde de modo a reorientar a formação dos trabalhadores da saúde no Brasil – a gente que faz o SUS acontecer. Por meio de vivências imersivas nos serviços do SUS e nos territórios, os viventes são convidados a refletir sobre a sua formação profissional de forma crítica, especialmente no âmbito do ensino, serviço, gestão e controle social no SUS, valorizando o papel dos movimentos sociais como sujeitos de mudanças na sociedade. Ao longo do ano de 2026, cerca de 300 vivências ocorrerão em todo o país, mobilizando quase 10 mil estudantes e residentes.
Em 2026, o Brasil comemora os 40 anos da 8ª Conferência Nacional de Saúde, marco histórico da Reforma Sanitária Brasileira e da luta popular que deu origem ao SUS. Em um contexto de intensificação da disputa política e ideológica no país, retomar o espírito participativo, democrático e popular daquela Conferência é tarefa estratégica para todas as pessoas que defendem o direito à saúde.
Neste ano, iniciam-se as etapas preparatórias para a 18ª Conferência Nacional de Saúde, a ser realizada em julho de 2027. Até o mês de julho de 2026, serão realizadas as etapas municipais em todo o país; de janeiro a abril de 2027, as etapas estaduais e livres. Esse processo de conferências de saúde poderá ser aproveitado para mobilizar a população para a luta em defesa do SUS, para que mais melhorias possam ser conquistadas e para que não ocorram mais retrocessos como houve outrora.
Por fim, em 2026, dois projetos se enfrentarão nas eleições: de um lado, aquele comprometido com a ampliação de direitos, o fortalecimento do SUS e a defesa da vida; de outro, um projeto que retoma a lógica do desmonte, da privatização e da submissão da saúde aos interesses do mercado. Nesse cenário, o Dia Mundial da Saúde deixa de ser apenas uma data e se afirma como um chamado à ação. Defender o SUS é defender a democracia, a soberania nacional e a dignidade do povo brasileiro. É nos territórios, nos serviços, nas universidades, nos movimentos sociais e nas conferências que se constrói essa luta. Porque o SUS não é apenas uma política pública: é o nosso lugar — e cabe a nós ocupá-lo, defendê-lo e fazê-lo avançar.
*Alisson Lisboa, médico de família e comunidade, sanitarista e militante do Movimento Brasil Popular.

