Encontro Nacional de Agentes Populares reunirá agentes populares em Brasília após mobilização regional pelo país

Nos dias 2 e 3 de maio, Fortaleza recebeu representantes de vários estados do Nordeste para refletir sobre as experiências de atuação nos territórios e construir propostas para o encontro nacional.

Por Camila Garcia, de Fortaleza (CE)

Troca de experiências, sistematização e construção de conhecimento a partir da mobilização social. É com esse objetivo que o Movimento Brasil Popular realiza, entre os dias 5 e 7 de junho, em Brasília, o Encontro Nacional de Agentes Populares. A atividade será a culminância de uma jornada de preparação construída em diversos estados brasileiros, marcada por encontros regionais que vêm reunindo militantes e lideranças populares para debater os desafios da organização comunitária nas periferias.

Após a realização de uma etapa preparatória envolvendo agentes populares das regiões Sul e Sudeste, em Belo Horizonte (MG), foi a vez do Nordeste promover o Encontro Regional Nordeste de Agentes Populares. Nos dias 2 e 3 de maio, Fortaleza recebeu representantes do Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Bahia e Maranhão para refletir sobre as experiências de atuação nos territórios e construir propostas para o encontro nacional.

O evento reuniu experiências ligadas à saúde comunitária, à educação, ao combate à fome, aos direitos humanos, à economia solidária e à organização popular nas periferias urbanas. A programação também buscou resgatar a trajetória do trabalho desenvolvido nos territórios desde a pandemia da Covid-19, período em que surgiram muitas das iniciativas que hoje integram a rede de agentes populares do movimento e foram construídas conjuntamente com o Ministério da Saúde, que é um dos apoiadores do Encontro Regional Nordeste de Agentes Populares

Da pandemia à organização popular

As ações de solidariedade durante a pandemia foram apontadas pelos participantes como o marco inicial da construção dos agentes populares. O esforço de enfrentar a fome, a insegurança alimentar e a ausência de políticas públicas nos territórios acabou se transformando em uma metodologia de organização popular e comunitária que hoje está presente em mais de 18 estados brasileiros.

Segundo dados da Fundação Getulio Vargas (FGV), cerca de 29,2 milhões de brasileiros enfrentaram fome grave no fim de 2021. Em 2022, o Brasil atingiu o ápice da insegurança alimentar, com 33,1 milhões de pessoas em situação de fome. Foi nesse contexto que surgiram iniciativas como cozinhas populares, redes de apoio comunitário e ações de cuidado coletivo nas periferias.

Cinthiane Nascimento, Agente Popular de Alimentação e coordenadora da Cozinha Popular do Pici, em Fortaleza, lembra que a solidariedade foi fundamental para enfrentar aquele período. “Na pandemia foi preciso a gente se ajudar. Meu pai levava o povo no hospital, eu e minha mãe organizamos uma cozinha na nossa garagem, arrecadamos alimentos e assim foi. Depois corremos atrás de fortalecer a nossa solidariedade com o apoio de políticas públicas para nossa cozinha popular. Hoje a gente conversa sobre tudo lá: moradia, direitos das mulheres…”, relata.

De acordo com Thays Carvalho, da coordenação nacional do Movimento Brasil Popular, o termo “Agentes Populares” começou a ser utilizado em Pernambuco, durante as ações de solidariedade organizadas por movimentos populares nas periferias. “Eram os Agentes Populares de Saúde, um trabalho de defesa do SUS que foi crescendo junto com a solidariedade de quem enfrentava a Covid-19 e a fome sem o apoio do então presidente Bolsonaro, que negava a gravidade do vírus e a importância da vacina”, afirma.

E, desde 2023, com a retomada democrática, o Governo Lula reconheceu essa iniciativa como uma das práticas mais exitosas no combate à Covid-19 e, através do Ministério da Saúde, tem apoiado na formação de novas turmas, com a instituição do Programa de Formação de Agentes Educadoras e Educadores Populares de Saúde (AgPopSUS) e garantindo a integração entre as políticas públicas de agentes territoriais desenvolvidas pelo governo. 

“Se hoje estamos fazendo esse grande processo de organização e debate sobre o papel de milhares de agentes populares que atuam Brasil afora, é porque lá no começo tivemos o apoio do Ministério da Saúde para fazer com que essa proposta pioneira dos movimentos populares se tornasse uma política pública que hoje garante a ampliação do acesso à saúde no país e o fortalecimento da participação popular”, ressalta Thays.

Mobilização comunitária e construção de políticas públicas

Para o Movimento Brasil Popular, os Agentes Populares cumprem um papel estratégico na reconstrução dos vínculos comunitários e na organização popular nos territórios. A aposta do movimento é de investir nos laços comunitários dentro das periferias e recriar esse espaço de comunidade para acumular forças em torno de um projeto de reformas estruturais no Brasil.

Dentro da sua atuação em diversas periferias em diferentes regiões do Brasil, a organização vem sistematizando experiências que apontam a necessidade do reconhecimento do trabalho sociocomunitário como uma ocupação social relevante para a democracia e para a soberania popular.

A metodologia dos agentes populares se expandiu rapidamente pelo país por ser considerada uma experiência de fácil replicação, baseada na ideia de solidariedade ativa e organização coletiva. A partir dela, surgiram iniciativas em diversas áreas. Hoje, o movimento impulsiona uma rede com cerca de 100  cozinhas populares em diferentes estados brasileiros construída a partir dessa metodologia. 

Ceará apresenta experiência dos Centros Populares de Solidariedade

Durante o encontro regional em Fortaleza, o Ceará apresentou a experiência do Centro Popular de Solidariedade (CPS) da Serrinha, espaço que reúne iniciativas de formação, atendimento comunitário, atividades culturais e articulação política nos territórios.

Guarany Oliveira, da Coordenação Estadual do Movimento Brasil Popular no Ceará, destaca que os centros populares sintetizam a experiência construída nas comunidades. “O Centro Popular de Solidariedade é a tradução concreta da rede de solidariedade e nos dá caminhos para avançar. É a reunião das nossas experiências com o povo nos territórios.”

Já Joana Borges, da Coordenação Nacional do movimento, ressalta o potencial organizativo dessas iniciativas. “É importante enxergar a experiência dos agentes e do Centro Popular de Solidariedade como ações políticas e organizativas com potencial de fortalecer a coesão nacional do nosso movimento.”

A programação também antecipou debates que estarão presentes no encontro nacional, como a discussão sobre economia solidária. O momento reuniu experiências de diálogo com pequenos negócios, cooperativas e coletivos comunitários das periferias nordestinas.

Para Alan Raymison, Agente Popular de Saúde do Ceará, os espaços de encontro são fundamentais para fortalecer o trabalho de base. “Os Agentes Populares contribuem para a qualificação e para potencializar os encontros. É no CPS e nesses espaços comunitários de promoção da vida que fortalecemos as sabedorias produzidas nos territórios.”

O processo de organização do trabalho dos Agentes Populares foi fundamental para pressionar o Estado brasileiro pela criação de políticas sociais voltadas ao fortalecimento da participação comunitária. Há iniciativas em diversos ministérios, em âmbito federal e até nos estados, como no Ceará. 

A experiência construída pelos movimentos populares também influenciou iniciativas nas áreas de saúde, cultura, igualdade racial e economia solidária. “O trabalho do Movimento Brasil Popular com os Agentes Populares têm nos mostrado como eles são fundamentais para construir formas mais permanentes de participação social nos territórios, articulando políticas públicas, mobilização comunitária e organização popular”, finaliza Thays Carvalho.

Agora, o Encontro Nacional de Agentes Populares, em Brasília, deve reunir cerca de mil Agentes Populares de diferentes regiões do país para aprofundar o intercâmbio de experiências, fortalecer a articulação nacional do Movimento Brasil Popular e acumular na construção coletiva de formas de incidência em políticas públicas.

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