Sem o governo do estado, o bolsonarismo sangra no Rio

Por Breno Rodrigues, militante do Movimento Brasil Popular

A chegada do bolsonarismo ao governo federal e ao governo estadual em 2018 intensificou o uso da máquina pública estadual no fortalecimento direto da extrema-direita no Rio de Janeiro. Wilson Witzel, um juiz desconhecido, e Cláudio Castro, vereador de primeiro mandato na Capital, foram eleitos com forte apoio da família Bolsonaro e, no comando do Executivo estadual, exerceram papel de destaque para o crescimento do campo neofascista.

Ato contra a PEC da Blindagem e a anistia em Copacabana. Foto de Divulgação do Poder 360º

O uso do governo estadual na consolidação da política da extrema-direita no Rio de Janeiro tem três pilares de sustentação. O primeiro é o loteamento da estrutura do estado para fortalecimento de suas bases políticas em todas as regiões. A prática de indicação de aliados para cargos de influência em troca de apoio político se alastrou por toda a máquina pública, em uma relação direta com políticos e empresários. Essa prática, por si só, não é infração; é, ao contrário, parte da dinâmica política que se instalou no Brasil ao longo de nossa história. Porém, o que se consolidou em paralelo foi a articulação com diferentes grupos, inclusive facções e milícias, em esquemas de favorecimento econômico, corrupção, crime e domínio territorial. Secretarias, empresas e autarquias estaduais atuaram para favorecer interesses privados e, nos últimos anos, com especial atenção à base aliada do bolsonarismo.

É exatamente aqui que política, crime e economia se entrelaçam numa relação de troca de favores e apropriação do poder público. Talvez o caso que melhor exponha esse fator seja o assassinato da companheira Marielle Franco, em que agentes públicos de diferentes setores estiveram diretamente envolvidos, desde a concepção até a execução. Os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, conselheiro do Tribunal de Contas e deputado federal, respectivamente, foram condenados por serem os mandantes do crime; Rivaldo Barbosa, ex-chefe da Polícia Civil, foi acusado de planejar a execução do crime; Ronnie Lessa, ex-policial militar, foi apontado como o autor dos disparos; Élcio Queiroz, ex-policial militar, confessou ter dirigido o veículo utilizado na perseguição; Ronald Pereira, major da Polícia Militar, foi acusado de monitorar Marielle; Giniton Lages e Marco Antônio, delegados da Polícia Civil, foram acusados de obstrução das investigações; e Maxwell Corrêa, ex-bombeiro, foi acusado de participar do monitoramento e ajudar a esconder as armas.

As recentes prisões dos deputados TH Jóias, Rodrigo Bacellar e Thiago Rangel, e a busca e apreensão realizadas nos endereços ligados à deputada Lucinha e ao deputado Val Ceasa também servem de exemplo desse problema.

O segundo pilar de sustentação são as operações policiais nas favelas do Rio de Janeiro. Verdadeiras chacinas promovidas com absoluto terror nas áreas empobrecidas e negras garantiram ao grupo político acessar a base ideológica alimentada pelo discurso do “bandido bom é bandido morto”. As operações, apesar de deixarem policiais e moradores em risco, funcionam como ativos políticos, servem de agitação da base bolsonarista e possibilitam conexão direta com milhões de pessoas que vivem com medo nas grandes cidades. A megaoperação nos Complexos da Penha e do Alemão, em 2025, expõe bem essa questão: Cláudio Castro passou de um governador fraco e mal avaliado para um forte nome na disputa de uma vaga ao Senado. Em 2021, a operação que deixou 28 mortos no Jacarezinho, a mais letal até aquele momento, também teve a mesma finalidade. Em ambos os casos, e em muitos outros, as ações foram comemoradas e defendidas como mecanismo de combate ao crime, escondendo um dos seus principais objetivos: projetar os quadros políticos, representantes e aliados do bolsonarismo na disputa do Estado.

Em resumo: no Rio de Janeiro, matar negro e pobre dá projeção política, voto, reproduz o projeto de extermínio e contribui decisivamente para a manutenção do poder. Este é o tamanho do nosso desafio.

A terceira base de sustentação se deu por meio da concessão da CEDAE e do esquema do CEPERJ. Em 2021, o governador Cláudio Castro concedeu por 30 anos a parte de distribuição de água e coleta de esgoto sanitário de uma das empresas mais lucrativas e estratégicas do Rio de Janeiro, a Companhia Estadual de Águas e Esgotos (CEDAE), arrecadando cerca de R$ 24,89 bilhões. R$ 14,47 bilhões ficaram para o Estado e R$ 7,688 bilhões foram divididos entre 29 cidades (Rio de Janeiro, Niterói, São Gonçalo, Caxias, Nova Iguaçu, Belford Roxo, São João de Meriti, Magé, Itaboraí, Mesquita, Nilópolis, Maricá, Cachoeiras de Macacu, Casimiro de Abreu, Tanguá, Rio Bonito, Paracambi, Seropédica, Japeri, Queimados, Miguel Pereira, Paty do Alferes, Vassouras, Piraí, Pinheiral, Rio Claro, Sapucaia, Sumidouro e Cantagalo), mas, sem finalidade definida, transparência e controle, não se viu onde e como foi aplicado o dinheiro. Dos 29 municípios que receberam recursos da concessão da CEDAE, apenas dois, Niterói e Maricá, não estiveram diretamente envolvidos no projeto de reeleição de Cláudio Castro. Além do mais, os dados mostram que houve um crescimento no quantitativo de votos na chapa ao Governo Estadual do grupo. Numa comparação entre as eleições de 2018 e 2022, é possível perceber que, em 28 das 29 cidades, houve crescimento eleitoral. A exceção foi, mais uma vez, Niterói.

Este processo possibilitou a construção de um arco de alianças com prefeituras e cabos eleitorais em todo o Estado, garantindo, assim, a reeleição de Cláudio Castro ainda no primeiro turno das eleições de 2022, com quase 60% dos votos, e a ampliação de sua base de deputados e prefeitos. Só o PL, partido de Castro, saltou de 15 para 23 deputados estaduais (53,33%) e de 2 para 11 deputados federais (450%). PL, PP, União Brasil e Republicanos saltaram de 22 prefeituras, em 2022, para 56, em 2024 (154%).

Parte significativa do recurso foi transferida para o Centro Estadual de Estatísticas, Pesquisa e Formação de Servidores Públicos do Rio de Janeiro, o CEPERJ, em um esquema de proporções gigantescas de contratação de pessoal para a execução de projetos temporários, que serviu como mais um método de injeção de dinheiro nas eleições.

A concessão da CEDAE foi, portanto, o que garantiu recurso para a ampliação de força política do campo bolsonarista no Rio de Janeiro, possibilitando que a base aliada disputasse as eleições em melhores condições, com mais estrutura e disposição material para para a busca dos votos. O resultado foi um crescimento vertiginoso do campo bolsonarista em todas as dimensões das eleições de 2022 no Rio de Janeiro, estendendo seu alcance até as eleições de 2024. Com mais recurso, foi possível também circular mais e melhor as concepções, ideias e ideais de extrema-direita em nosso estado. 

O fator Ricardo Couto e o enfraquecimento da extrema-direita no Rio

No dia 3 de dezembro de 2025, o então Presidente da ALERJ, Rodrigo Bacellar, foi alvo de uma Operação da Polícia Federal sob suspeita de vazamento de informações sigilosas e obstrução de investigações contra o crime organizado. Bacellar era nome certo para a sucessão de Castro no Governo do Estado e o acordo era simples: Castro renunciaria ao cargo de Governador e Bacellar, 2° na linha sucessória por estar Presidente da ALERJ, assumiria temporariamente o comando do Estado e faria sua campanha para Governador já no cargo de governador interino, ou seja, com a caneta na mão, mas a prisão atrapalhou seus planos. Castro renunciou no dia 23 de março de 2026, prazo final para desincompatibilizar-se do cargo e seguir para a disputa do Senado. No dia 24 de março de 2026, Ricardo Couto, Presidente do Tribunal de Justiça do Estado e 3° na linha sucessória, assumiu o cargo de governador interino e deu início a uma profunda reorganização na máquina estadual. Mais de 4 mil funcionários fantasmas foram exonerados, secretários foram trocados e uma nova política foi implementada na gestão. No dia 17 de abril, Douglas Ruas foi eleito presidente da ALERJ, recompondo a linha sucessória, e entrou com pedido para assumir de forma imediata e interina o governo do estado, mas foi barrado pelo STF. 

Este processo impactou profundamente o grupo bolsonarista no Rio de Janeiro, pois neutralizou a representação política da extrema-direita no uso absoluto da máquina do estado. Ao sair do governo estadual, o bloco de extrema-direita perdeu seu principal mecanismo de atuação no Rio de Janeiro: a estrutura do estado que lhes possibilitava recursos financeiros, cargos e espaços de poder e comando já não está mais em suas mãos, não obedece aos seus projetos, demandas e objetivos. Dessa forma, a retirada do grupo neofascista do governo do estado desarticulou a representação política da extrema-direita. A chegada e permanência de Couto ao cargo de Governador e o consequente bloqueio da extrema-direita é o fato político mais importante desde o assassinato de Marielle Franco, pois foi capaz de colocar freio na representação política do bloco neofascista, reduzindo seu alcance no estado e enfraquecendo suas bases objetivas. 

Neste contexto, o bloco girou suas atenções para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ), buscando a retirada de cargos e comissões da esquerda para alocar seus deputados e recontratar alguns dos exonerados por Couto. A ALERJ, que já não era desprezível, ganhou ainda mais destaque neste cenário e passou a ser, ao lado das prefeituras, o principal motor de atuação do bloco. 

Ao mesmo tempo, Ricardo Couto avança em articulações com o Governo Lula, o que abre espaço para o campo da esquerda e pode contribuir diretamente para um melhor posicionamento do presidente no Rio de Janeiro. A adesão ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (PROPAG) e a presença do governador interino em agendas do presidente Lula para anúncio de obras e financiamento no Rio de Janeiro reforçam este caminho.

Ou seja, estamos diante de um duplo movimento: em primeiro lugar, a retirada do principal ativo bolsonarista no Rio de Janeiro, o governo do estado, desorganizando os três pilares da sua prática política no comando do estado; depois, a abertura de diálogo com o governo do Brasil e a possibilidade de projeção direta de Lula no Rio com investimentos federais.

É preciso ter cautela, pois a extrema-direita tem bases organizadas, ampla adesão ideológica e um grande arco de alianças que se mantém ativo e unificado, mas se há poucos meses parecia certo que conseguiriam a manutenção do seu poder à frente do governo estadual, hoje há um cenário bem diferente que coloca as forças democráticas em melhores condições nesta disputa.

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a posição do Movimento Brasil Popular

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