O que vi durante 28 dias na Venezuela? 

Por Jonathan Hassen

Conheci a Venezuela no ano de 2019 junto a outros integrantes de movimentos populares. Passamos 28 dias no país. Entramos pela fronteira em Pacaraima (RR) e seguimos por terra até Caracas. Nossa experiência não ficou restrita à capital. Pude conhecer outras cidades venezuelanas nos estados de Cojedes e Lara. Conheci a realidade da capital e de pequenas cidades no interior do país.

Estudei a Constituição Venezuelana, seus princípios (uma constituição inspiradora, inclusive), e, no país, pudemos conhecer diversas experiências de organizações populares e mecanismos de participação social. O que conheci está longe de ser uma ditadura, ou um governo com características autoritárias, como é a imagem propagada no Brasil. Para entender a motivação dessa concepção, precisamos ir para a geopolítica.

A Venezuela tem relevância no globo. Possui uma das maiores reservas no mundo de Petróleo e outros recursos naturais. Hoje, em 2026, o Petróleo ainda é um motivador de conflitos no cenário internacional. Detentora de tanto petróleo, a Venezuela comandada pela esquerda e pelo chavismo é uma pedra no sapato aos EUA. Sua insubmissão aos interesses norte-americanos tem um preço, que é um gravíssimo bloqueio econômico, além de diversas investidas contra a soberania da Venezuela. 

Os EUA agem contra a soberania de diversos países em nome da liberdade ou de qualquer outro pretexto, mas sempre com interesse próprio. O plano de Trump é fazer a “America Great Again”, e não mede esforços para isso. Quer forçar a hegemonia estadunidense num contexto geopolítico em que esse paradigma não mais se sustenta. 

Sequestrar o presidente de um país com o pretexto de combater o narcotráfico é tão ridículo quanto pensarmos no sequestro do presidente Lula hoje com esse mesmo motivo. Nicolás Maduro é um presidente eleito pelo povo venezuelano, e não se mantém na chefia do executivo por meio de golpe de estado. 

É fato que o povo venezuelano é um dos mais politizados que já conheci. Quando digo povo, digo os favelados das grandes comunidades existentes no país, da grande massa da classe trabalhadora. Quando digo politizados, digo de um povo que entende a correlação política, os diferentes grupos e projetos políticos existentes e em disputa no país e, inclusive, sobre a importância da manutenção de governos progressistas na América Latina, por que sim, eles entendem que é importante que Lula seja presidente no Brasil para que tenham boas relações políticas e econômicas com o seu país. Imagina o brasileiro com esse nível de consciência?

O perigo de uma sociedade politizada é ela saber o que quer e o que não quer. O voto consciente é altamente dispensável à direita e a projetos políticos não comprometidos com o bem estar social, com o desenvolvimento e com a melhoria das condições de vida da população. A Venezuela experimentou a presidência pela direita, e o que ela teve a oferecer foi a pobreza, miséria, concentração de renda e ausência de políticas aos pobres. Hugo Chavez apresentou ao povo venezuelano outra alternativa, e disse que outro sistema era possível. O povo experimentou, aprovou e sustenta até hoje esse conjunto de políticas denominado chavismo. Se trata de um governo avesso ao capitalismo e que preza pelo bem estar do povo venezuelano.

Na Venezuela as pessoas não pagavam conta de luz, água, e pagavam um valor praticamente simbólico quando abasteciam seus veículos. Conheci programas de alimentação, saúde, sistema educacional, e de moradia, no qual, inclusive, as pessoas viviam também no centro das cidades, e não em regiões afastadas contribuindo com a gentrificação e a segregação nas cidades. 

Percebi em todos os lugares que passei que o chavismo e a esquerda devolveram ao povo venezuelano sua auto-estima, seu orgulho, sua identidade, cultura e seus símbolos. 

Voltando à geopolítica, é inadmissível aos EUA e outras nações capitalistas o desenvolvimento de uma “segunda Cuba” no globo. Logo, é necessário que narrativas sejam desenvolvidas para combater esse sistema e esse “regime” que se trata de uma das experiências de democracia mais avançadas atualmente, que refletem em todas as políticas públicas existentes no país. Quando digo isso, digo sobre o formato das políticas públicas existentes no país que favorecem e privilegiam a participação social e a opinião dos povos para a tomada de decisões.

Construir a figura do ditador que deve ser combatido é uma narrativa comprada pelas grandes mídias e amplamente difundida, pois há que se combater o desenvolvimento de uma experiência como essa no mundo. Ao passo que o capitalismo é uma concepção hegemônica nos EUA como sistema e como cultura, na Venezuela, o socialismo é a concepção hegemônica. Essa é a força dominante no país, e que nações capitalistas veem como um grande perigo.

O fato de a Venezuela ser uma das maiores reservas de petróleo do mundo a tornam uma pedra no caminho dos EUA que sempre viram na América Latina o seu quintal para exploração e para fornecimento de insumos e matérias primas para a sua indústria. Eles não respeitam nossa autonomia, nossa soberania, porque não somos vistos por eles como nações ao patamar de qualquer um outro país europeu. Por isso, eles se veem no direito de intervir na política e nos rumos da América Latina em nome dos seus interesses próprios. No Brasil, inclusive, se acharam no direito de intervir na política brasileira e nas nossas instituições para prender Lula e para eleger Jair Bolsonaro, isso com o objetivo de manter o Brasil como nação mais alinhada aos seus interesses.

Dito isso, é surreal o sequestro do presidente Nicolas Maduro, que é um presidente eleito democraticamente, quer se queira ou não. Se o povo venezuelano o escolheu, quem são os EUA para acusar um golpe ou o definir como autoritário? 

Há direta organizada na Venezuela? Claro que sim. Há oposição e eles estão ansiosos em retomar o poder via golpe de estado. Nesse processo, certamente os EUA seriam seus aliados. Porém, se eles ainda não foram eleitos, é por que o povo em maioria não os quer.

A Venezuela resiste frente a um bloqueio econômico ilegal, imoral e injusto e a todas as tentativas e incursões do capitalismo para desgastar e desestabilizar o seu governo e derrubar a esquerda no país. Comemorar o sequestro do presidente Maduro é um ato de ignorância e de enfraquecimento da democracia em todo o mundo. Cabe a todos nós latino-americanos adquirimos essa consciência, pois qualquer um de nossos países pode ser o próximo alvo.  

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